A Elenira nasceu em 84, em 86 nasceu o Sandino. O Chico queria muito ter mais filhos, para ele era muito importante ter um filho homem, mas aí quando a Elenira nasceu ele nem pensou mais nisso, ele de cara se apaixonou pela menina. Ainda hoje eu me lembro da alegria, do sorriso de felicidade dele quando pegou a Elenira no colo pela primeira vez. Eu me lembro dele ainda no hospital dizendo que o nome era Elenira, que a filha dele ia ter nome de guerrilheira. Depois com o Sandino foi a mesma coisa, foi tudo igual. A gente tinha um trato, se fosse menino eu ia escolher o nome, mas quando nasceu o Chico decidiu que era Sandino, porque ele queria colocar no filho um nome de herói. E acabava que ele vencia.

O Chico vencia pelo jeito que ele explicava as coisas, para colocar o nome de um filho ele contava toda a história daquele nome, porque isso era importante para a criança, ele falava com tanta convicção e com tanta doçura que eu ia dizendo – tá bom, Chico, fica do jeito que você quer. Eu sempre apoiava o Chico em todas as decisões dele. Tem um ditado que diz que atrás de todo homem grande tem sempre uma grande mulher. Eu tenho certeza de que fui essa grande mulher para o Chico, porque cuidei dele, cuidei da nossa casa, cuidei dos nossos filhos sozinha para que ele pudesse dedicar a vida dele para o movimento. Isso foi do dia que a gente trocou o primeiro olhar até o minuto final da vida dele, até a hora em que ele morreu.

Eu sei que sou a única pessoa que conhece todos os lados do Chico. Era comigo que ele desabava, quando eu via nos olhos dele a pressão do sufoco, eu era essa grande mulher que segurava aquela barra com muito medo mas também com muito companheirismo porque eu acreditava no que ele fazia, e eu era muito apaixonada por ele. E mesmo antes das ameaças, eu tive que segurar muito a barra com a falta de ter onde morar, com a falta de dinheiro, porque o Chico não tinha salário, e a gente para viver dependia da solidariedade dos companheiros.

Sempre para fazer a feira, comprar um remédio, uma roupa para as crianças, a gente dependia sempre da ajuda de um companheiro. Ou então era um seringueiro que trazia da colocação dele um pouco de arroz, um pouco de feijão, um pouco de arroz. Tinha sempre um companheiro que trazia dez quilos de arroz, quinze quilos de feijão. A vida era sofrida, o Chico não tinha ambição nem para ele nem para nós. E quando o Chico arrumava algum dinheirinho, ele olhava pra mim e dizia: Minha velha, ele sempre me chamava de minha velha, essa quarta parte é para você comprar alguma coisa para você, o restante vou comprar algumas coisas para o Sindicato, para oferecer aos companheiros quando eles chegarem. Às vezes eu andava descalça porque não tinha dinheiro para comprar uma sandália para calçar, mas a repartição do nosso dinheirinho com o Sindicato, essa era sagrada porque o Chico não abria mão de compartilhar tudo o que conseguia com os companheiros.
 
O Chico nessa luta e eu lá, apoiando em tudo, acompanhando, acreditando nas palavras dele que lutar era importante, que um dia as coisas iam mudar para melhor, que um dia todo mundo ia poder viver em paz, com a floresta produzindo muita fartura sem precisar ser desmatada para dar de comer aos filhos da floresta. Eu vivia com medo, mas cheia de esperança. Eu tinha consciência das ameaças, mas nunca pensava que uma tragédia estava para acontecer.

Eu só vim realmente a ter certeza de que o Chico ia ser morto foi já nos últimos meses, nas últimas semanas, quando eu soube da confusão com o Darli, da carta precatória que o Chico conseguiu provando que ele era bandido antes de vim pro Acre, lá na terra dele, no Paraná. O Chico me dizia: Minha velha, eles vão usar o Darli como linha de frente, mas ele vai ser só a linha de frente, quem está por trás da minha morte não são só os fazendeiros, são também os políticos do Acre, mancomunados com a polícia federal. O Chico sabia que estava para morrer, ele não tinha nenhuma dúvida de que não tinha como escapar.

Ele chegou da viagem, fazia dias que ele não ia em casa, inclusive algumas pessoas tentaram fazer ele ficar no Rio de Janeiro, ficar em Rio Branco.  Ele falou que não, que estava com saudade de mim e das crianças, todo mundo depois falou isso, que ele estava com saudade da família. No dia 15 de dezembro foi o aniversário dele, nesse dia ele sentou comigo na nossa cama e disse que queria me preparar porque esse era o último aniversário dele com vida. Ali a minha vida também acabou porque dessa vez eu também sabia que era o fim.

O dia 22 foi um dia que marcou muito porque ele passou o dia com as crianças, grudado na Elenira e no Sandino, naquele dia ele tinha muitos compromissos mas não largou os meninos hora nenhuma. Por duas vezes durante aquele dia ele chamou a Elenira, colocou no colo, e perguntou: Elenira se o papai morrer, o que é que você vai fazer? Eu, com o coração cortado, via a Elenira responder: Eu vou chorar muito, papai. E ele: Não, filhinha, o papai não quer que você chore, o papai quer que você cresça e estude muito para continuar a luta do papai. Por duas vezes ele chamou a Elenira e teve essa conversa com ela naquele dia.

O resto é história conhecida, mas para mim é também lembrança e orgulho de ter podido conviver com um grande homem, um grande militante, mas sobretudo com um grande pai e um grande companheiro.

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