Ilzamar Mendes

Eu conheci o Chico eu era muito jovem ainda, eu tinha na época de seis a sete anos de idade, o Chico era seringueiro e cortava seringa de meia na colocação do meu pai. Na época eu era muito criança, e ele cuidava de mim como um irmão mais velho. Ao mesmo tempo em que ia cuidando, ele ia me alfabetizando. Foi o Chico que me alfabetizou. Naquela época o Chico já ensinava pra gente colocando dentro dessa alfabetização a importância da organização, da participação no movimento, ele já ia formando a gente para ser liderança.

Além de aprender a assinar o nome, a fazer algumas continhas, a importância era a conscientização que ele ia passando, a gente pequena, ele já passando esta importância do sindicato, da luta. Ele ia contando pra gente, como se fosse um causo, sobre o sofrimento dos nossos pais pela pressão dos patrões, sobre o patrão roubando da gente no preço e no peso da borracha porque a gente não sabia ler para conferir as contas. A primeira coisa que o Chico assinava pra gente, antes mesmo das letras, eram os números. Era aprender a somar, a fazer contas porque ele dizia que assim não ia ter mais seringueiro enganado pelo patrão. A gente ficava sabendo ali mesmo no meio da aula o que era sindicato, nessa época não existia sindicato ainda mas ele já estava articulando com o pessoal para fundar o Sindicato de Brasiléia.

Depois disso a gente se separou por alguns anos, eu fui crescendo, fui ficando uma mocinha, e dos 14 para os 15 anos eu encontrei o Chico de novo. Aí já foi outra coisa, foi quando surgiram os olhares apaixonados, ele muito bonito, eu sempre achava ele muito bonito, tinha um jeito especial de tratar as pessoas, ai não teve jeito, num primeiro momento olhares e depois deu para perceber que nós dois estávamos apaixonados. Mas como naquela época era lei seca, minha mãe não deixava a gente encostar um dedo, beijo então nem pensar, era aquela coisa, ele olhava, eu olhava, sempre assim tudo ficando entendido através dos olhares. Até que quando eu fiz 15 anos o Chico resolveu falar com o papai que queria namorar comigo. 

Ele disse que tinha boas intenções, que queria compromisso sério, aí veio dois anos de namoro, dos 15 aos 17. A gente se casou no cartório de Brasiléia, mas as comemorações, muito simples, foram feitas na Colônia Santa Fé, na Colocação Morada Nova, que foi onde eu nasci e me criei junto com os oitos filhos dos meus pais.  Meu pai cortava seringa nessa colocação. Tem uma coisa engraçada, nessa época uma moça casava e ela ainda ficava dois três dias em casa, o cara na sala, dormindo no banco de paxiúba da sala, e ela no quarto. Comigo foi igual, casei sem nunca ter dado um beijo, depois no segundo dia comecei a preparar as coisas, muito chororô, e no terceiro dia ele me levou.

A gente veio embora para Xapuri e no mesmo ano o Chico Mendes foi eleito Presidente do Sindicato. Casei com um militante, eu tinha o meu marido por um dia e depois passava trinta dias sem ele, porque era sempre uma viagem atrás da outra para mobilizar os trabalhadores, para buscar apoio para a luta dos companheiros. Mesmo assim, vivemos momentos muito bons, de muita felicidade. Com o Chico eu tive uma vida de momentos bons e momentos muito difíceis porque logo começaram as ameaças dos fazendeiros, e era comigo que ele falava primeiro sobre os riscos que estava correndo. Eu via tudo isso acontecendo.

Na época que ele viajou para os Estados Unidos, que ele foi para aquela reunião do BID para denunciar o que estava acontecendo na construção do BR 364, não que o Chico fosse contra o desenvolvimento, porque o que o Chico queria era um desenvolvimento que fosse bom para os trabalhadores, que fosse bom para o Brasil, mas que não destruísse a floresta. O Chico nunca falou que era contra o desenvovimento, ele sempre falava que queria esse desenvolvimento com proteção da floresta e com direitos para os povos da floresta. Mas foi aí que a perseguição aumentou, que os políticos do Acre, aliados com a polícia federal e com os fazendeiros, decidiram tramar a morte dele.

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