Elenira Mendes

« És a vanguarda da esperança.
 Elenira darás continuidade um dia à luta que seu pai não conseguirá vencer ».
Chico Mendes

A recordacão que tenho do meu pai é um pouco vaga, meio distante. Mas me  lembro bem do dia 22 de dezembro de 1988. Daquele dia eu me lembro muito bem. Acho que foi como uma espécie de despedida quando ele levou a mim e ao Sandino naquele caminhão novo do sindicato para passear. Eu me lembro daquela noite, por volta das 18 horas, nós estavamos na sala e minha mãe dava de comer a mim e ao Sandino no mesmo prato. 

Lembro-me que meu pai saiu para tomar banho e aconteceu aquela confusão, com os policiais correndo na direção contrária à nossa, a gente correndo para a cozinha e, de repente, ele vem e cai ali, bem na porta do nosso quarto. Ele tenta, mas não consegue falar o meu nome. Me lembro dele, ali, no chão, ensangüentado, tentando dizer meu nome. Esta é uma pergunta que sempre vai viver dentro de mim – o que ele queria me dizer naquele momento? Cresci com essa cena  na minha mente  e eu acho que ela jamais vai ser apagada.

Também cresci com uma revolta muito grande  contra o Movimento Social, porque na minha concepção - cuja única lembrança do meu pai era vendo ele, ali, no chão, morrendo -  era de que o movimento tinha causado  a perda do meu pai. O sentimento que eu tinha era de que  perdi meu pai por essa luta dos povos da floresta, e isso me magoava muito. Era incapaz de compreender como essa luta foi importante e bonita.

Esse sentimento perdurou até o dia do meu aniversário de 19 anos. Nesse dia, minha tia me mostrou algumas fotos minhas com dedicatórias do meu pai. No verso de uma delas estava escrito: «És a vanguarda da esperança. Elenira, darás continuidade um dia à luta que seu pai não conseguirá vencer». Foi como se aquela bala que tocou no peito dele, que provocou a perda física da vida dele, estivesse entrando fundo no meu peito.  Foi como se ele tivesse me dizendo que era a minha hora de acordar, porque eu tinha uma missão para cumprir. Então, fiquei pensando que talvez ali estivesse pelo menos parte da resposta para o que ele tentou e não conseguiu me dizer na hora em que estava morrendo. Isso mexeu muito comigo.

A  partir daí,  comecei a me envolver com a causa do meu pai, a buscar mais informações sobre o que foi a luta de Chico Mendes; a querer saber mais sobre o legado que ele tinha deixado não só para mim, Elenira, como  filha, mas para toda a juventude  do futuro, como ele deixou escrito naquela carta tão bonita  aos jovens em geral, a mim, ao Sandino, à Ângela. Eu precisava fazer algo enquanto filha, enquanto jovem. Comecei por trazer para mim a responsabilidade de organizar o acervo e de cuidar da casa dele, daquele espaço tão pequeno e tão simbólico, capaz de atrair pessoas do mundo todo: a casa do Chico Mendes, a casa em que nós morávamos, a casa onde passei o curto tempo de convivência que tive com meu pai. Eu não podia mais ficar parada. Eu precisava me envolver.

Decidi, então, criar o Instituto Chico Mendes - fundado em 2006, com um um olhar mais jovem, para envolver a juventude de Xapuri no movimento ambiental e na luta de Chico Mendes. Com o Instituto, podemos mostrar o legado de Chico Mendes para as pessoas jovens, porque em vários momentos da sua trajetória, meu pai sempre se referia à juventude. Acho que ele via a esperança, a bandeira do amanhã nas mãos da juventude. E é isso que nós temos feito: mostrar para as pessoas jovens de Xapuri que foi daqui da nossa cidadezinha  que surgiu um grande líder. Um seringueiro sermi-analfabeto, um grande cidadão, um ambientalista que talvez nem soubesse o o que era ecologia, mas um grande homem que o mundo inteiro conhece e respeita quando se refere ao meio ambiente.

Hoje sou apaixonada por tudo isso e me emociono ao ver a dimensão que a luta do meu pai tomou - o nosso Estado do Acre, por exemplo, adotou o ideal da florestania, a partir do governo do Jorge [Jorge Viana, Ex-Governador do Acre, o primeiro a implantar o conceito de florestania como política de Estado]. Eu sei que nada disso vai trazer meu pai de volta, mas é muito bom saber que a luta dele teve resultados e trouxe frutos. Estes registros podem preservar a história do meu pai e dos seus companheiros, porque daqui há um tempo todos se vão, e a importância do conhecimento deles é muito grande para ficar guardada. É preciso compartilhar essa história com as pessoas jovens de Xapuri,do Acre, do Brasil.

Do fundo do meu coração, o maior presente que o Brasil poderia dar à memória do meu pai era diminuir o desmatamento da Amazônia. Minha maior alegria seria, um dia, saber que a Amazônia chegou ao tão sonhado desmatamento zero. Eu sei que é só um sonho, mas jamais vou deixar de sonhar, porque  este foi o exemplo que meu pai me ensinou, através da sua prática de vida,  nos curtos quatro anos da nossa convivência, e no muito que venho aprendendo sobre o sonho dele. Porque foi para isso que meu pai viveu e morreu – para transformar a floresta em espaço, em ambiente economicamente viável e sustentável, sem precisar destruí-la.

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